Carta para o meu melhor amigo *

By | 14:35

Há alguns anos atrás eu simplesmente não conseguia te entender e acho que entre nós havia uma parede com um cimento cheio de contestações e tinta fresca de críticas. De repente eu não tinha capacidade para digerir alguns gestos vindos de você e seguidamente me deparava com aquela sensação meio azeda de fracasso. Minha nota que podia ter sido melhor ou um quadro que podia ter ficado mais bonito; acho que fui um tanto dura com o seu jeito de ser.

Lembra quando eu estava aprendendo a andar de bicicleta? Você resolveu tirar aquelas rodinhas auxiliares e te olhei fundo e disse “promete que me segura”? Você disse "sim, sim". Quando olhei para trás você não estava, acabei me desequilibrando e fui parar em um morro. O resultado foi: muito choro, joelho ralado e um sentimento de solidão. Quando nós brigávamos eu saía cheia de lágrimas, ia para o quarto me agarrar em alguma almofada (você sabe, choro sem cena dantesca não é choro) para me achar a maior vítima das vítimas adolescentes. Ficava ali fungando esperando você chegar e dizer “ei, não chora, não precisa, tá tudo bem”. Você nunca vinha, mas eu sempre esperava. Sabe, essas histórias fizeram sentido depois que eu cresci.

Sei que tenho que enfrentar o mundo - e o medo - e cair, se necessário for. Também sei que, enquanto você puder, sempre estará pronto para me ajudar a levantar e limpar os eventuais machucados, afinal, você nunca me deixou só. Por um instante algo sobrevoa a minha consciência: alguma vez te deixei sozinho? Sei que, de uma maneira peculiar, todos nós somos sozinhos. Não é à toa que nascemos sós, morremos sós, sofremos sós. Já viu que na hora da alegria todos querem tomar um gole do seu champagne? E na hora em que você se fecha como uma ostra, tem medo de colocar o nariz para fora, se sente uma raspa humana: onde estão os amigos que gostam de fazer brindes e discursos? No fundo é você com você, e isso não é ser pessimista ou solitário - muito menos triste - , isso é aceitar que nós temos que aprender a equilibrar os nossos anjos e demônios.

Aprendi desde cedo que temos que fazer por merecer, vou te contar um segredo: guardei todos os seus ensinamentos em uma lista. Na verdade ela não existe, mas é o que me serve de alimento. Contraditório e um pouco incoerente, eu bem sei. Nada chega de mão beijada, o mundo lá fora é diferente. Tenho mania de fingir que o mundo é colorido, justo e que as pessoas podem até ser legais. Será que é muito ruim fingir um pouco? Talvez eu invente verdades, é menos dolorido. Na vida de verdade as pessoas me assustam, existe nelas uma crueldade absurda, inerente. E elas são medrosas. Possuem um medo descomunal de respirar fora da caixa, entregar a cara a tapa. Não tenho esse medo, sempre fui valente, você sabe. Acho que, se preciso for, a gente deve arrancar a pele. Tem que doer, sangrar, perfurar, cortar, ralar. Tem que deixar trauma, lembrança, marca. Tem que acumular experiências, tirar lição e empilhar aprendizado. Mas também tem que curar e virar uma cicatriz decente e bonita. Não gosto de azedume, suspiros de infelicidade, olhos interrompidos e sonhos pela metade. Não importa como: temos que enforcar o mal e achar um sentido que faça sentido.

Sabe qual a minha maior preocupação? É saber se você é feliz. Não esse feliz vulgar, feliz de feliz. Você acorda por quê? Respira por quê? Entenda, você não é velho, muito pelo contrário. Não deixe os seus projetos junto com a roupa suja na lavanderia. Onde está a sua coragem? O cansaço não pode te vencer, nem o desestímulo. Por favor, não me decepcione. Não se decepcione.

Será que algum dia eu soube demonstrar com exatidão o meu amor por você? Acho que não, essa coisa exata nunca foi a minha cara. Não sei fórmulas de cor, muito menos equações. Lógicas para mim são ilógicas. Muitas vezes eu nem sei traduzir, falar ou escrever, é tão difícil! Você é a pessoa que eu mais admiro na vida, já disse e repito: por você vale qualquer coisa, qualquer esforço. Te amo tanto que a minha garganta vai fechando devagar e juro que não quero ser cafona, mas te ver triste me deixa com o coração pingando lentamente. Lembra daquela torneira do banheiro que a gente fechava e ficava “plic...pliccc...”? Não adiantava fechar ou apertar, ela pingava sem fim.

Você não é herói, mas conserta tudo. Tem solução para tudo. E me diz que no outro dia as coisas sempre parecem melhores – ou mais compreensíveis. Com licença, vou usar as suas palavras: tudo tem solução. Tudo. Você precisa se consertar e eu vou te ajudar, sabia? Nunca vou te deixar sozinho e se algum dia você estiver perdido é só procurar a minha mão que nós acharemos o caminho de volta, mas eu quero que você tenha essa certeza na sua cabeça: minha mão sempre estará ao seu alcance. Bônus de 100% até R$ 500 + 200 giros grátis

Algumas coisas eu nunca soube pedir, mas você entendeu. De vez em quando as coisas não saíam com clareza, mas você acendeu as luzes. E sempre esteve comigo e eu te amo tanto que até me dói o peito. Obrigada por me salvar muitas vezes: dos outros, das situações, das minhas próprias dúvidas e sombras. Tudo que eu tenho de mais belo aprendi com você.

Não desaprende as coisas simples e que são as mais valiosas, nem deixa o teu coração emudecer. Através das janelas existem paisagens e através das paisagens existem muitas outras coisas: temos que saber enxergar.

Desejo que você não perca seu lado brincalhão, bobo e criativo. Que consiga se perceber, se entender e acreditar em dias melhores, mesmo que isso seja complicado hoje - ou sempre. É difícil ser adulta, paizinho, mas eu continuo tentando. Gostaria que você tentasse também. Você é o melhor que tem. O mais bonito que já fizeram e inventaram nessa vida. Nós estaremos sempre juntos, não importa em que lugar do mundo eu esteja e para que lugar você vá. Feliz aniversário!


Com amor,

Polaca





* Da série "Cartas guardadas atrás da estante".


** Texto publicado em 19 de novembro de 2007.